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Veneza sofre sua pior inundação em 53 anos


A Basílica de São Marcos inundada, palácios, museus, hotéis e lojas com a água quase até os joelhos, gôndolas arrastadas para as margens, a cidade paralisada e um morto. A maré alta da noite da terça-feira em Veneza deixou a cidade mergulhada numa situação de caos, como em 1966, quando l'acqua granda de 194 centímetros a alagou e provocou sérios danos no patrimônio arquitetônico e artístico. O governador da região, Luca Zaia, do partido direitista Liga, fala em “devastação apocalíptica” e pediu que o Governo central envie ajuda e declare estado de emergência. Mas a crise não passou ainda, e nesta quarta se esperava outra maré muito alta, de até 160 centímetros. 



A lembrança da terrível inundação de 4 de novembro de 1966 começou a se materializar na terça, 12 de novembro, às 21h (17h em Brasília). A essa hora, um vento superior ao previsto se levantou, empurrando com força a água do Adriático para a Laguna de Veneza. O Centro de Previsão das Marés de Veneza, que também se viu afetado pelo fenômeno e ficou incomunicável, tinha previsto um máximo de 160 centímetros, às 23h. Mas às 22h40, a maré já alcançava 180 centímetros, e às 23h havia chegado a 187. “A situação é muito complicada, e neste momento não estamos dando conta”, disse um porta-voz municipal por telefone. “Há 80% da cidade sob a água, há danos inimagináveis”, anunciou Zaia. Alguns museus ficaram danificados, e outros lugares, como a Bienal, fecharam por precaução. “Não tivemos danos particulares, mas hoje a circulação deve ficar livre para outro tipo de necessidades”, disse uma porta-voz.

O prefeito, Luigi Brugnaro —que passou a noite visitando diferentes bairros– solicitou ao Governo italiano que declare estado de emergência por desastre natural em Veneza e em suas ilhas (Murano, Burano, Lido e Pelestrina), tão afetadas como a velha cidade. Nela, um homem de 68 anos morreu fulminado por uma descarga elétrica quando tentava salvar sua casa das inundações. “Desta vez a situação é verdadeiramente grave, um vento soprava fortíssimo e alimentava a maré. Estes são os efeitos da mudança climática”, escreveu Brugnaro em sua conta do Twitter, enquanto percorria na noite de terça a praça de São Marcos. Várias zonas da cidade ficaram sem eletricidade, como o Lido e o Campo de Santa Margherita. A maioria de trajetos em vaporetto (lanchas de passageiros) foi suspensa, depois que três destas embarcações afundaram na Riva degli Schiavoni.

Brugnaro fez um apelo ao Governo italiano para que conclua o megaprojeto de engenharia que pretende defender Veneza das marés altas. Esse fenômeno costuma inundar as zonas baixas da cidade, em particular a praça de São Marcos. Mas seu efeito se multiplica, como aconteceu desta vez, com o siroco, um forte vento saariano. Para proteger a cidade das marés, que afetam cada vez mais o seu patrimônio artístico, em 2003 começaram a ser construídos 78 diques flutuantes como parte do projeto Mose (Módulo Experimental Eletromecânico, na sigla em italiano). Esses diques deveriam fechar a laguna em caso de alta das águas do Adriático. Mas problemas de corrupção deficiências na construção atrasaram sua ativação.

A Basílica de São Marcos se encontra em um dos pontos mais baixos da cidade e é um dos monumentos mais afetados. O diretor de conservação da basílica, o arquiteto Mario Pina, passou toda a noite dentro do edifício tentando salvar os objetos do chão. “É um desastre, como em 1966, ou pior, ainda não sabemos. Trabalhamos a noite toda para proteger peças preciosas como crucifixos, apoiados nas partes mais baixas. A água entrou em toda a igreja e também na cripta, banhando os mosaicos”, declarou Pina ao EL PAÍS.

Quando a água entra na basílica, gera danos irreversíveis que se evidenciam com o tempo, conta o arquiteto. A água salgada se evapora, corrói o mármore e quebra os mosaicos. Em toda a história da basílica, construída no ano 828 e reconstruída depois de um incêndio em 1063, apenas em cinco ocasiões o vestíbulo foi inundado. O mais preocupante é que três dessas cinco grandes inundações ocorreram nos últimos 20 anos, a última em 30 de outubro de 2018.

O ministro italiano dos Bens Culturais, Dario Franceschini, anunciou nesta quarta que, uma vez concluída a análise dos efeitos da “água alta”, chegará a verba para financiar a conservação da Basílica de São Marcos. O edifício, que conserva mosaicos bizantinos e o corpo de São Marcos, padroeiro da cidade, viu a água entrar seis vezes em 1.200 anos. Na última delas, há pouco mais de um ano, a água invadiu o pavimento milenar de mosaico de mármore e alagou completamente o batistério e a capela, arruinando portões de bronze bizantinos, colunas e peças de mármore. Passaram-se 53 anos desde a grande inundação de 1966, e Veneza continua tão frágil como então.

Com informações de EL PAÍS

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